Post Frouxo (Para Um Cão)

Chamo-me Erik Satie como toda a gente.

in Memória de um Amnésico, Erik Satie

XI

Estava eu no campo com um amigo, e falámos sobre vertigem; ele ignorava o que isso era.

Fiz-lhe várias demonstrações de vertigem sem obter o menor resultado. O meu amigo não conseguia perceber que angústia podemos sentir ao ver um telhador a trabalhar num telhado. A todos os exemplos que apresentei, o meu amigo encolheu os ombros; o que não era muito educado nem amável.

De repente vi um melro que acabava de pousar na extremidade de um ramo, ramo alto, um muito velho ramo. A sua posição era das mais perigosas… O vento fazia o velho ramo oscilar, e o pobre do bicho apertava-o com as pequenas mãos crispadas.

Voltei-me então para o meu companheiro: — Veja, disse eu, como aquele melro me faz pele de galinha e vertigens. Temos de ir buscar imediatamente um colchão e pô-lo debaixo da árvore, porque o pássaro ainda vai perder o equilíro e partir, com certeza, a espinha.

Sabem o que é que o meu companheiro me respondeu?

Com toda a frieza?… Com toda a simplicidade?: — Você sempre me saiu um pessimista!

Convencer as pessoas não é nada fácil.

Erik Satie

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